sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Soneto de Natal

Um homem, — era aquela noite amiga,
noite cristã, berço no Nazareno —
ao relembrar os dias de pequeno,
e a viva dança, e a lépida cantiga, quis transportar ao verso doce e ameno
as sensações da sua idade antiga,
naquela mesma velha noite amiga,
noite cristã, berço do Nazareno.
Escolheu o soneto... A folha branca
pede-lhe a inspiração; mas, frouxa e manca,
a pena não acode ao gesto seu.
E, em vão lutando contra o metro adverso,
só lhe saiu este pequeno verso:

"Mudaria o Natal ou mudei eu?"

(Machado de Assis)

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Até logo...

Na noite deste domingo, após reconhecer a vitória de Dilma na eleição presidencial, Serra fez um pronunciamento, e afirmou que a derrota "não é adeus, é até logo".

"Quero agradecer aos brasileiros de todos os cantos do nosso território. No dia de hoje, os eleitores falaram. Nós recebemos com respeito e humilde a voz do povo nas ruas. Quero aqui cumprimentar a candidata eleita Dilma Rousseff e desejar que faça bem para o nosso país. Eu disputei com muito orgulho a Presidência da República. Quis o povo que não fosse agora. Mas digo aqui, de coração, que sou muito grato aos 43,6 milhões brasileiros e brasileiras que votaram em mim.

Sou muito grato a todos e a todas que colocaram um adesivo, uma camiseta, que carregaram uma bandeira com o Serra 45. Meu imenso muito obrigado a vocês de todo o nosso país. Quero agradecer também aos milhões de que lutaram nas ruas e na internet em defesa da nossa mensagem de um Brasil soberano, democrático e que seja propriedade do seu povo. Vou carregar comigo cada olhar, cada abraço, cada frase que eu recebi em todo o Brasil. Cada mensagem de estímulo, de vibração, inclusive no meu Twitter, que tem centenas de milhares de participantes.

E vou dizer a vocês uma coisa que eu disse muitas vezes: eu recebi toda energia para essa campanha, com sete meses, foram sete meses, desde que eu sai do governo de São Paulo, de muita energia, de muita movimentação e de muito equilibro que foi necessário. E eu chego hoje nesta etapa final com a mesma energia que eu tive ao longo dos últimos meses. O problema é como despender essa energia nos próximas dias e semanas. É uma energia que foi passada em todo o Brasil. Eu insisto, nas ruas, em todos os lugares, as pessoa falando, as pessoas abraçando.

E quero lembrar ainda que ao lado desses 43,6 milhões votantes, nós recebemos também votos que elegeram 10 governadores que nos apoiaram em todo o nosso país. Dos quais, um está presente: meu querido companheiro de muitas jornadas Geraldo Alckmin. Quero dizer que se empenhou mais na minha eleição do que se empenhou na sua, sinceramente. Mas a maior vitória que nós conquistamos nesta campanha não foi mérito meu, mas foi mérito de vocês.

Pode parece estranho para um candidato que não ganhou a eleição, mas vim aqui não para falar de frustração, mas para falar da confiança e da esperança. Nestes meses duríssimos, quando enfrentamos forças terríveis, vocês alcançaram um vitória estratégica no Brasil. Cavaram uma grande trincheira. Construíram uma fortaleza. Consolidaram um campo político de defesa da liberdade e da democracia no Brasil. Um grande campo político em defesa da democracia, da liberdade e das grandes causa sociais e econômicas do nosso país, que estão aí vivas no sentimento de toda a nossa população.

A nossa campanha trouxe também ao cenário eleitoral uma juventude que ama o Brasil, uma juventude que a ma a liberdade. Eu encontrei os jovens no Brasil inteiro, pessoalmente, na internet, por todo o canto. Ao longo da campanha, eu vi em muitos deles, dos jovens, em centenas, em milhares, o jovem que eu também fui um dia, sonhando e lutando por um país melhor, como eu faço até hoje. Por um país melhor, mais justo e democrático. Onde os políticos fossem servidores do povo e não se servissem do nosso povo. Vocês, eu repito, não imaginam quanto energia eu tirei daí. Como isso me jogou para diante, mesmo nos momentos mais difíceis.

E para os que nos imaginam derrotados, eu quero dizer: nós apenas estamos começando uma luta de verdade. Estamos no começo do começo. E nós vamos dar a nossa contribuição em defesa da pátria, da liberdade, da democracia, do direito que todos têm de falar e de serem ouvidos, da justiça social Vamos dar contribuição como partidos da nossa frente de partidos, como indivíduos, como parlamentares, como governadores. Essa será a nossa luta dos próximos anos. Por isso a minha mensagem de despedida neste momento, não é um adeus é um até logo.

A luta continua, viva o Brasil. Vou aqui falar o último verso do nosso hino, que é muito significativo, que mais de uma vez eu disse na nossa campanha: "Mas, se ergues da justiça a clava forte, Verás que um filho teu não foge à luta, Nem teme, quem te adora, a própria morte. Terra adorada, Entre outras mil, És tu, Brasil, Ó Pátria amada! Dos filhos deste solo és mãe gentil, Pátria amada, Brasil! "

domingo, 31 de outubro de 2010

Mudança é sempre pra melhor...

Eu amo tudo o que foi,
Tudo o que já não é,
A dor que já me não dói,
A antiga e errônea fé,
O ontem que dor deixou,
O que deixou alegria
Só porque foi, e voou
E hoje é já outro dia.

(Fernando Pessoa, 1931.)

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Manifesto de intelectuais e artistas - Apóie, multiplique esta mensagem!

Visite o site do manifesto aqui!

O BRASIL COM SERRA
*
Agora é Serra! Porque ele tem história. Serra está na origem de obras fundamentais nas áreas da Cultura, da Educação, da Saúde, na Infraestrutura,dna Economia, da Assistência Social e da Proteção ao Trabalho. Apoiamos Serra porque ele tem passado. Mas estamos com ele, antes de tudo, porque o Brasil e os brasileiros têm futuro.
Agora é Serra porque o país está, sim, diante de dois projetos: um reconhece a democracia como um valor universal e inegociável, que deve pautar o convívio entre as várias correntes de opinião existentes no Brasil. O outro transforma adversários em inimigos. Precisamos de um presidente que nos una e reúna, não de quem nos divida.

Agora é Serra porque repudiamos o dirigismo cultural, a censura explícita ou velada, as patrulhas ideológicas, as restrições à liberdade de imprensa, o aparelhamento do Estado em todas as suas esferas e a truculência dos que se pretendem donos do Brasil. Estamos com Serra porque não aceitamos que um partido tome o lugar da sociedade.

Agora é Serra porque o grande título da cidadania dos brasileiros é a Constituição democrática, não a carteirinha de filiação a um partido. A democracia é fruto da dedicação e do trabalho de gerações de brasileiros, que lutaram e lutam cotidianamente para consolidá-la e aperfeiçoá-la. O país não tem donos.

Agora é Serra porque precisamos aperfeiçoar as conquistas sociais, econômicas e culturais havidas no Brasil desde o Plano Real e que nos habilitam a ocupar um lugar de destaque no mundo. Estamos com Serra porque as outras nações têm de ouvir a voz forte e inequívoca do Brasil em defesa dos direitos humanos, da autodeterminação dos povos e da paz. O nosso lugar é ao lado das grandes democracias do mundo, não de braços dados com ditadores, a justificar tiranias.

Agora é Serra porque estamos profundamente convencidos de que não há qualquer contradição entre a justiça social, que pautou toda a sua vida pública, e a preservação dos valores universais da democracia e das liberdades individuais, que fazem a grandeza das nações.

Agora é Serra porque é preciso, sim, comparar os candidatos e identificar quem está mais preparado para enfrentar os desafios que o Brasil tem pela frente. Homens e mulheres, em qualquer atividade, se dão a conhecer por sua obra, que é o testemunho de sua vida. A Presidência da República exige alguém com experiência e competência comprovadas. Não basta querer mudar o Brasil; é preciso saber mudar o Brasil. E a vida pública de Serra deixa claro: ele sabe como fazer.

Agora é Serra, enfim, porque nascemos todos livres e iguais em dignidade e direitos e porque esse norte ético da Declaração Universal dos Direitos do Homem não pode ser mero exercício retórico. Precisamos vivê-lo na prática. Queremos Serra para o bem do Brasil e de sua maior riqueza: os brasileiros!

Agora é Serra!

(Use os botões abaixo para espalhar esta mensagem)

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Sempre criança; sempre...

(republico)
Não sou afeita a dias. Dia disso ou daquilo. Acho tudo uma bobagem. Natal, acho triste. Mas, o Dia das Crianças eu gosto. Todo ano presenteio um adulto nesse dia. Acredito na alma da criança; pura. Talvez por não entender as coisas, talvez, simplesmente, porque ao entender, prefere viver... Estes dizeres abaixo me fizeram ter mais certeza da eterna criança que vive em nós...

"Renda-se, como eu me rendi. Mergulhe no que você não conhece como eu mergulhei. Não se preocupe em entender, viver ultrapassa qualquer entendimento." (Clarice Lispector)

sábado, 2 de outubro de 2010

O presidente que o Brasil precisa...

Fazer acontecer, uma paixão do Serra

Por Cristina Ikonomidis

Final de 2007, São Paulo, Palácio dos Bandeirantes, gabinete do governador, noite quente. Lá estava eu aguardando mais umas das difíceis, porém produtivas, reuniões da equipe da Educação com o governador Serra. Junto estavam a secretária Maria Helena de Castro e a Iara Prado, secretária adjunta. Trazíamos o relatório sobre o andamento do plano de metas da secretaria, cuja execução colocou, sem exagero, o ensino público paulista no caminho da melhoria, tão almejada por todos.

Eu era assessora especial da secretaria. Meu papel, além de coordenar as ações de comunicação, passava pelo acompanhamento de alguns de nossos projetos. A reunião começou atrasada, como de praxe; estávamos com fome, como sempre.

Esgotado o assunto entre nós na espera, a ansiedade só aumentava. Serra chegou com seu olhar sempre preocupado e sem tempo, porém elétrico. A reunião foi rápida, com algumas interrupções por conta de chamadas telefônicas. Rapidez com Serra não significa que deixamos de ver algo, pelo contrário, eu diria que víamos tudo e muito mais. A facilidade de entendimento sobre qualquer tema e seu método prático de tratar questões faziam do Serra um governador especial.

Aquele “muito mais”, para ele, era encaminhar todos os problemas que perambulavam em sua cabeça constantemente. É como se a mente dele não parasse de ativar a parte do cérebro que cuida de resolver as coisas.

E foi em um desses momentos que ele virou-se pra mim – ao final da reunião – e disse: “Cris, você que entende tudo de computador, de internet, veja uma solução para os laboratórios de informática das nossas escolas. Vamos resolver isso rápido, de uma vez por todas, não agüento mais ver salas fechadas, sem uso, com computadores que nem devem funcionar mais.”

Os laboratórios de informática tinham sido implantados nas escolas estaduais numa época em que a informatização era moda em todo lugar. No entanto, não eram salas de aula comum - e nem deveriam ser. Anos se passaram e, numa rede de ensino com 5,3 mil escolas e pouquíssimas pessoas capacitadas para cuidar de tais salas, o resultado não poderia ter sido pior: computadores antiquados, quebrados, infraestrutura com problemas, salas trancadas etc. A diretora da escola, em geral, tinha medo de deixá-las abertas.

Para o jeito Serra de governar, aquilo era um tormento; tormento que passava a ser nosso na medida em que os dias iam se passando e a cobrança ia aumentando. Como ele mesmo dizia, “eu não sou centralizador, eu apenas acompanho e cobro”. E, é verdade (talvez o padrão de cobrança dele seja tão alto que beira à vontade de resolver as coisas por conta própria e fica parecendo que ele centraliza). É um obsessivo por fazer as coisas acontecerem.

A partir daquela reunião, fui tomada pelo desafio de resolver o problema dos “laboratórios de informática”. Estudo daqui, pesquisa de lá, visita às escolas, conversas com meu colega e amigo Fernando Padula (que era e ainda é chefe de gabinete da Educação) e idéias surgindo.

Semanas depois, para meu desespero, o governador marcou mais uma reunião no gabinete dele, desta vez, para tratar da remuneração dos professores. Como não poderia deixar de ser, ele me cobrou: “E aí, Cris, já resolveu aquele negócio da informática, o que vamos fazer?” Eu disse a ele que estava vendo... Não tem coisa que mais irrita o Serra quando ele percebe o uso do gerúndio em resposta a algo que não estava acontecendo. Foi lacônico: “Se está vendo é porque não fez nada.”

Porém, naquele dia, as idéias estavam tomando forma e disse a ele: vamos “terceirizar” as salas, vamos contratar o serviço, alugar os computadores, como máquina de Xerox, sabe? Não preciso dizer que minha fala - com uma espécie de visão “de direita” - arrepiou todos que estavam na reunião. E não é que ele me estimulou a prosseguir com aquela sugestão? Aliás, essa é uma característica interessante do Serra que poucos sabem: ele acredita, dá linha aos mais jovens.

Alguns meses se passaram até que conseguimos chegar a uma proposta de projeto exeqüível - na verdade tínhamos duas, cuja diferença era uma questão ideológica. Não era tarefa fácil, pois envolvia além da renovação dos equipamentos, adaptação das salas e instalação da rede de acesso à internet, havia o pessoal que ia administrar as salas, ou seja, milhares de monitores capacitados, um pilar fundamental do projeto.

Entre uma discordância e outra na reunião em que discutíamos o projeto – no mesmo gabinete – Serra só escutava, do jeito dele: meio desligado, mas já tinha entendido tudo, estava apenas triturando os elementos para dar a solução final. Ele combina as boas idéias, o espírito público, a visão cartesiana, o conhecimento de economia como meio de fazer acontecer. Um estilo objetivo, às vezes ríspido, afetuoso e instigante; muitas vezes, engraçado.

Assim nasceu o Acessa Escola, um programa inovador, que mantém os laboratórios de informática das escolas estaduais abertos durante todo o período de aulas. Os estudantes podem utilizar as salas a qualquer momento, não apenas durante as aulas de informática, e ainda têm auxílio de monitores treinados que são da própria escola - alunos do 1º e 2º ano do Ensino Médio que recebem uma bolsa de R$ 340 para desenvolver as atividades do programa, durante quatro horas por dia. Em suma, estamos falando de um programa que oferece, praticamente, o primeiro emprego aos jovens e transforma cada laboratório de informática em uma espécie de “lan house” da escola. Vale destacar que a equipe que executou de fato o Acessa Escola foi muito competente, sempre de prontidão e dedicada ao programa.

Fiquei na Secretaria da Educação até agosto de 2009 onde pude acompanhar de perto o sucesso do Acessa Escola. Ainda assim, recebia ligações do governador, que resolvia dar incerta nas escolas, dizendo: “Olha, Cris, aqui na escola que estou não está funcionando, o laboratório está fechado, resolva isso!” Obviamente, o programa tinha um cronograma a seguir, não implantamos tudo de uma vez nas mais de 5 mil escolas.

A inquietude, a preocupação do Serra não atrapalhava o cronograma, mas nos fazia ir à busca de melhorar, com persistência. A última vez que o Serra abordou o tema comigo, estava contente com o resultado, pois tinha percebido que conseguimos realizar um projeto que trouxe muitos benefícios a milhares de pessoas.

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

La lucidez cotidiana.

"as mulheres esperam que esperam. os anos, os vestidos, os amores. falam daquele que não volta, daquilo que volta, das coisas que têm que voltar. momentos mínimos da realidade. às vezes, escutam os internos. nem tão sempre, o externo. significam algo? procuram documentos estrangeiros a si próprias. tentam ligações, desabafam inquietudes, estranham saídas. terminam por combinar com tudo. e com o mesmo. a dita e cuja neurose cotidiana. não desesperam psicologias desmembradas. para quê? para que precisem ser mais do que são. quando falam sobre compreensão, não compreendem. quando escutam o amor, não o percebem. significam alguém? esperam que as esperem. penso que é inútil. melhor fazerem de conta que são de conta. que se apaixonam por um som ou por um filósofo alemão inexistente. que não necessitam da lucidez do destino: aquele cômodo, muito incômodo, que apóia os anos, os vestidos, os amores. elas precisam des-significar. para quê? para não serem mais do que são em suas intermitências diárias. arrumar mala, abandonar objetos e subjetos, levar nada, esquecer tudo."

domingo, 19 de setembro de 2010

Vale ler!

HISTÓRIA MAL CONTADA
POR XICO GRAZIANO*

(Publicado na Folha de S.Paulo - Tendências/Debates - em 19/09/2010)

O presidente Lula tenta deformar a história. Insiste em afirmar que o Brasil foi descoberto em 2003. Seu proselitismo é equivocado, egocêntrico, imoral e injusto. Muita luta e trabalho coletivo, pessoas importantes ou gente comum, ajudaram a erigir o país.
Lula venceu as eleições em 2002 e, inebriado pelo poder, desatou a esconder do povo certas verdades que o incomodam. Sua maior birra recai sobre Fernando Henrique Cardoso, a quem trata como vilão da história. Jamais Lula reconheceu que o sucesso de seu governo se embasa nas políticas estruturantes comandadas por FHC.
Atacou, de cara, o que denominou de "herança maldita". Mal assumiu o governo, porém, passou a "pentear" os programas existentes, mudando-lhes o nome.
Trocou o Luz do Campo pelo Luz para Todos, iluminando a roça e escurecendo a verdade. Juntou o Bolsa Alimentação e o Bolsa Escola no Bolsa Família, expandindo-o. Ele, que havia um dia chamado os programas de transferência de renda de "esmola de pobre", mudara de opinião. Que bom.
Manteve o Pronaf (Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar), mas desatou maldosamente a instigar pequenos agricultores contra grandes fazendeiros, instaurando a cizânia sob a qual reina desde os tempos de São Bernardo do Campo -um afago aqui, um boné ali.
Sua candidata acaba de receber o apoio de usineiros. Mas o discurso oficial diz que José Serra não gosta da agricultura familiar. História mal contada.
Os filósofos da ciência há muito questionam a relação entre história e verdade. Será possível a objetividade na ciência histórica? A resposta continua complexa. Nós sabemos que a história se escreve pelas mãos daqueles que a dominam.
As guerras territoriais sempre enalteceram os conquistadores. No faroeste norte americano, os índios viraram bandidos.
A permanecer, que história o lulismo contará nos livros escolares? Dirá que o PT se opôs às medidas saneadoras da economia, a começar do Plano Real? Haverá coragem para assumir que lutaram contra a Lei de Responsabilidade Fiscal? Que privatizaram as florestas da Amazônia? Ou esconderá isso?
Duas forças atuam nesse processo que constrói a história recente. De um lado, a maior transparência adquirida com o avanço da mídia. Antes, nem opinião pública havia, e fácil era deturpar o ocorrido. Na cortina de ferro, Stálin destruiu Trotsky, transformando-o de herói em traidor da revolução soviética.
O povo, por bom tempo, acreditou. Do outro lado, opera a incrível capacidade de comunicação de Lula, um encantador de pessoas. Perspicaz, sua lógica política anda impondo sobre a realidade um véu imbecil. Com estrondosa aprovação, Lula debocha de seus críticos, destrói o argumento, vulgariza o debate nacional. Pai dos pobres. Temo, sinceramente, pelo resultado desse processo de formação da nossa consciência coletiva.
Obstinado em eleger sua candidata, Lula enfrenta a oposição ridicularizando os adversários e fazendo-se dono da história. Mostra generosidade com aliados que antes chamava de canalhas, mas despreza o grande sociólogo com quem panfletou em porta de fábrica. Lula renega seu passado para não dar a mão à palmatória para FHC. Ingratidão.
Sua candidata vai além. Aprendiz da política ilusória, transformou a campanha eleitoral em festival de mentiras: alguém acredita mesmo que Serra quer acabar com o Bolsa Família? Privatizar a Petrobras? Vender o Banco do Brasil? O Estado policialesco que se descortina permite temer o livro do futuro. O engodo ameaça prevalecer. Até, tomara, ser desmascarado.

FRANCISCO GRAZIANO NETO, o Xico Graziano, engenheiro agrônomo, doutor em administração pela FGV (Fundação Getulio Vargas), é coordenador do programa de governo de José Serra (PSDB), candidato à Presidência. Foi deputado federal (PSDB-SP), presidente do Incra (1995) e secretário da Agricultura e Abastecimento (governo Covas) e do Meio Ambiente (gestão Serra) de São Paulo.

domingo, 5 de setembro de 2010

Imperdível - e irretocável - este artigo...

VAMOS ERRAR DE NOVO?

por FERREIRA GULLAR

(artigo publicado na Folha de SP em 05-09-2010)

FAZ MUITOS ANOS já que não pertenço a nenhum partido político, muito embora me preocupe todo o tempo com os problemas do país e, na medida do possível, procure contribuir para o entendimento do que ocorre. Em função disso, formulo opiniões sobre os políticos e os partidos, buscando sempre examinar os fatos com objetividade.
Minha história com o PT é indicativa desse esforço por ver as coisas objetivamente. Na época em que se discutia o nascimento desse novo partido, alguns companheiros do Partido Comunista opunham-se drasticamente à sua criação, enquanto eu argumentava a favor, por considerar positivo um novo partido de trabalhadores. Alegava eu que, se nós, comunas, não havíamos conseguido ganhar a adesão da classe operária, devíamos apoiar o novo partido que pretendia fazê-lo e, quem sabe, o conseguiria.

Lembro-me do entusiasmo de Mário Pedrosa por Lula, em quem via o renascer da luta proletária, paixão de sua juventude. Durante a campanha pela Frente Ampla, numa reunião no Teatro Casa Grande, pela primeira vez pude ver e ouvir Lula discursar.

Não gostei muito do tom raivoso do seu discurso e, especialmente, por ter acusado "essa gente de Ipanema" de dar força à ditadura militar, quando os organizadores daquela manifestação -como grande parte da intelectualidade que lutava contra o regime militar- ou moravam em Ipanema ou frequentavam sua praia e seus bares. Pouco depois, o torneiro mecânico do ABC passou a namorar uma jovem senhora da alta burguesia carioca.

Não foi isso, porém, que me fez mudar de opinião sobre o PT, mas o que veio depois: negar-se a assinar a Constituição de 1988, opor-se ferozmente a todos os governos que se seguiram ao fim da ditadura -o de Sarney, o de Collor, o de Itamar, o de FHC. Os poucos petistas que votaram pela eleição de Tancredo foram punidos. Erundina, por ter aceito o convite de Itamar para integrar seu ministério, foi expulsa.

Durante o governo FHC, a coisa se tornou ainda pior: Lula denunciou o Plano Real como uma mera jogada eleitoreira e orientou seu partido para votar contra todas as propostas que introduziam importantes mudanças na vida do país. Os petistas votaram contra a Lei de Responsabilidade Fiscal e, ao perderem no Congresso, entraram com uma ação no Supremo a fim de anulá-la. As privatizações foram satanizadas, inclusive a da Telefônica, graças à qual hoje todo cidadão brasileiro possui telefone. E tudo isso em nome de um esquerdismo vazio e ultrapassado, já que programa de governo o PT nunca teve.

Ao chegar à presidência da República, Lula adotou os programas contra os quais batalhara anos a fio. Não obstante, para espanto meu e de muita gente, conquistou enorme popularidade e, agora, ameaça eleger para governar o país uma senhora, até bem pouco desconhecida de todos, que nada realizou ao longo de sua obscura carreira política.

No polo oposto da disputa está José Serra, homem público, de todos conhecido por seu desempenho ao longo das décadas e por capacidade realizadora comprovada. Enquanto ele apresenta ao eleitor uma ampla lista de realizações indiscutivelmente importantes, no plano da educação, da saúde, da ampliação dos direitos do trabalhador e da cidadania, Dilma nada tem a mostrar, uma vez que sua candidatura é tão simplesmente uma invenção do presidente Lula, que a tirou da cartola, como ilusionista de circo que sabe muito bem enganar a plateia.

A possibilidade da eleição dela é bastante preocupante, porque seria a vitória da demagogia e da farsa sobre a competência e a dedicação à coisa pública. Foi Serra quem introduziu no Brasil o medicamento genérico; tornou amplo e efetivo o tratamento das pessoas contaminadas pelo vírus da Aids, o que lhe valeu o reconhecimento internacional. Suas realizações, como prefeito e governador, são provas de indiscutível competência. E Dilma, o que a habilita a exercer a Presidência da República? Nada, a não ser a palavra de Lula, que, por razões óbvias, não merece crédito.

O povo nem sempre acerta. Por duas vezes, o Brasil elegeu presidentes surgidos do nada -Jânio e Collor. O resultado foi desastroso. Acha que vale a pena correr de novo esse risco?

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Música mais linda da semana...



No entanto alguém me disse...

Vale a pena ler este artigo.

O custo oculto do governo Lula

Por Maílson da Nóbrega - publicado em Veja 8/08/2010

Aos olhos da opinião pública, Lula é um grande presidente. Sob democracia, nenhum desfrutou de tanta popularidade. É difícil encontrar no mundo quem o iguale. A avaliação pode ser outra, todavia, se considerada a herança que lega aos sucessores.
Lula poderia ter sido um desastre se seguisse o ideário econômico equivocado de seu partido, que ele próprio professava. Integraria o rol dos populistas latino-americanos que infelicitaram seus países: Perón, Allende e Chávez, para citar os mais nefastos.

Por sorte dele – e do Brasil –, virou presidente quando já existiam os incentivos para a gestão macroeconômica responsável: democracia, liberdade de imprensa, estabilidade, intolerância à inflação, previsibilidade da política econômica e maior inserção do país na economia mundial.

Lula chegou ao poder livre de boa parte de sua visão anticapitalista. Politicamente amadurecido e dotado de extraordinária intuição, renunciou às obtusas ideias da plataforma eleitoral de 2001, que o PT lançou em Olinda (“A ruptura necessária”).

Sua corajosa decisão de manter a política econômica associou-se a uma capacidade de comunicação extraordinária e a uma desfaçatez sem limites. Convenceu as massas de que tudo foi obra dele e desacreditou os antecessores.

Lula não enfrentou as crises amargadas pelos que governaram entre 1974 e 2002. Justamente a partir de 2003, a economia mundial viveria uma fase áurea. A China passaria a demandar as commodities nas quais o Brasil é competitivo. Quando veio a crise de 2008, o país estava preparado.

Ocorre que o desenvolvimento é um processo permanente e não o efeito temporário de esforços precedentes. Há que avançar sempre na construção de instituições e em outras ações para melhorar o ambiente que leva à inovação e aos ganhos de produtividade. São medidas complexas, que demoram a frutificar.

Na perspectiva de futuro, Lula é um fracasso. A situação fiscal piorou. O consumo do governo passou de 4,2% para 8,8% do PIB, enquanto os investimentos e inversões financeiras subiram apenas de 0,4% para 1,6% do PIB e mesmo assim por causa basicamente do suprimento de recursos ao BNDES para subsidiar grupos empresariais. A carga tributária passou de 32% para 36% do PIB e sua qualidade se deteriorou.

O regime de exploração do pré-sal pode mudar por razões ideológicas. O custo será menor eficiência no seu aproveitamento, elevação do potencial de corrupção e pulverização dos recursos entre estados e municípios. A estatização foi retomada. A ressurreição da Telebrás, sem sentido, pode gerar mais desperdícios.

A burocracia piorou. Surgiram milhares de normas confusas e conflitantes, de agências reguladoras entregues a militantes e afilhados políticos, nem sempre com as qualificações necessárias. A Anvisa primou em obrar regras para consumidores supostamente imbecis.

O deficiente sistema de transportes virou obstáculo à operação da logística, o que reduz a competitividade. O PAC serve mais para comícios eleitorais do que como saída para os problemas da infraestrutura: representa meros 0,6% do PIB, ou pouco mais de 10% das necessidades.

Ficaram na retórica as reformas para elevar o potencial de crescimento, particularmente a tributária, a trabalhista e a previdenciária. Dada a incapacidade de liderar uma solução para a bagunça do ICMS, os exportadores acumulam mais de R$ 30bilhões de créditos tributários.

Na política externa, a ideologia e a busca de um protagonismo delirante prevaleceram sobre as tradições de competência do Itamaraty. O governo apoiou notórios ditadores, reeditou fracassadas iniciativas do governo Geisel e colheu derrotas em indicações para organizações internacionais.

No campo ético, a herança nada tem de edificante. A corrupção alcançou níveis inéditos, como no esquema do “mensalão”. Na deliberada transgressão da lei eleitoral, Lula parece dizer que o crime compensa, lamentável atitude de um chefe do governo popular, que deveria dar bons exemplos.

Essas e outras ações constituem um custo oculto, de ordem moral, social e econômica. O grande público não o perceberá. Bons estudos poderão, entretanto, registrar a autoria dos respectivos erros e omissões: Lula.

segunda-feira, 26 de julho de 2010

Por não estarem mais distraídos

Havia a levíssima embriaguês de andarem juntos, a alegria como quando se sente a garganta um pouco seca e se vê que, por admiração, estava com a boca entreaberta: eles respiravam de antemão o ar que estava à frente, e ter essa sede era a prórpia água deles.

Andavam por ruas e ruas falando e rindo, falavam e riam para dar matéria e peso à levíssima embriaguês que era a alegria da sede deles.

Por causa dos carros e pessoas, às vezes, eles se tocavam e, ao toque – a sede é a graça, mas as águas são uma beleza de escuras – e ao toque brilhava o brilho da água deles, a boca ficando um pouco mais seca de admiração. Como eles admiravam estarem juntos! Até que tudo se transformou em não.

Tudo se transformou em não quando eles quiseram essa mesma alegria deles. E então a grande dança dos erros. O cerimonial das palavras desacertadas.

Ele procurava e não via, ela não via que ele não vira, ela, que estava alí no entanto. No entanto, ele que estava ali… tudo errou, e havia a grande poeira das ruas. E quanto mais erravam, mais com aspereza queriam, sem um sorriso.

Tudo só por que tinham prestado atenção, só por que não estavam bastante distraídos. Só por que, de súbito exigentes e duros, quiseram ter o que já tinham. Tudo porque quiseram dar um nome; por que quiseram ser, eles que eram.

Foram então aprender que, não se estando distraído, o telefone não toca, e é preciso sair de casa para que a carta chegue, e quando o telefone finalmente toca, o deserto da espera já cortou os fios.

Tudo, tudo por não estarem mais distraídos…

(Clarice Lispector)

domingo, 25 de julho de 2010

Diretas-já para o Legislativo!

O Estado de S.Paulo - 15/07/2010

*por Roberto Macedo


Há tempos defendo o voto distrital. A recente Lei da Ficha Limpa e o movimento que a trouxe de fora para dentro do Congresso Nacional reacendeu expectativas de mudanças. Ademais, o momento eleitoral é oportuníssimo para voltar ao assunto, pois de novo demonstrará como o sistema atual para o Legislativo, o proporcional, é claramente inadequado. De novo conduzirá a uma leva de deputados federais e estaduais ineficazes como representantes dos cidadãos. Isso para não recorrer a outros adjetivos que cabem a alguns deles.

Reafirmarei argumentos em favor do voto distrital. Como novidade, recorri à mensagem do título para comunicar melhor a ideia. Trata-se de associar o sistema distrital ao voto direto preferido pelo eleitor, pois o distrital é eleição direta também para o Legislativo. Em contrapartida, o sistema atual tem forte e abjeto conteúdo de eleição indireta.

Em resumo, nesse sistema, o proporcional, para as vagas a serem preenchidas cada partido tem seus muitos candidatos. O eleitor vota num deles, os votos são apurados e as vagas, distribuídas proporcionalmente à quantidade de sufrágios que cada partido recebeu. Aí já existe um quê de indireto, essa distribuição de votos aos partidos.

Os eleitos são os candidatos mais votados em cada partido, evidenciando então o forte componente indireto do processo, pois muitos eleitores terão votado num candidato não eleito, mas contribuindo, via voto partidário, para eleger outro, até um ou mais em quem jamais votariam. E há campeões de votos que elegem outros do mesmo partido, mas com inexpressiva votação, como fazia o falecido Enéas.

No distrital, a eleição é direta e ocorre num espaço geográfico bem menor que um Estado, o que facilita enormemente o controle do eleito pelo eleitor, ao lado de reduzir sensivelmente os custos de campanha e toda a bandalheira que costuma vir junto com seu financiamento. No caso federal, São Paulo elege 70 deputados, e cada um viria de um distrito, onde cada partido só teria um candidato. O número de viáveis ficaria reduzido a poucos, como na atual campanha para a Presidência da República, em que apenas três se destacam. Assim, a eleição dos deputados seria tão direta como as de presidente, de governadores e de prefeitos.

A escolha do eleitor seria facilitada, pois é mais fácil comparar poucos candidatos. O sistema também permitiria debates entre eles, prévias eleitorais e tudo o mais a despertar o interesse do eleitor pela eleição.

E, muito importante, o eleito representaria o distrito e, assim, o variado conjunto de interesses nele existente. No proporcional, muitos são eleitos por grupos de interesses e corporações, que os cevam com votos por todo o Estado, gerando em Brasília as correspondentes bancadas. Como exemplos, a rural, a dos aposentados e a do bingo. Esse sistema também abre espaço para insólitas bancadas, como a que tinha Enéas.

Para esclarecer ainda mais o distrital recorro ao exemplo de um brasileiro que reside no Canadá, onde há esse sistema. Com inveja, ouvi dele: "Temos o nosso deputado, da mesma forma que temos médico, dentista, advogado, e por aí afora, podendo recorrer a ele, que inclusive está sempre no distrito, fazendo o seu trabalho e prestando contas, de olho também na reeleição." Ou seja, é um prestador de serviços.

Existe isso aqui? Salvo microexceções, não! Alguns não fazem nada, outros servem a seus ou a outros interesses que não o do eleitor. E há também os que não prestam mesmo, mas, caras de pau, estão novamente a disputar votos. Ontem este jornal noticiou que a Lei da Ficha Limpa ameaça 1.614 candidatos no País. Com tantos contestados, é sinal de que o número de fichas-sujas comprovadas também deve ser elevado, reafirmando antigas e recorrentes percepções, ao lado de fatos que se passam no mundo político brasileiro.

No fundo, há uma crise de representação. Uma democracia autêntica não dispensa a representação eficaz dos eleitores. No Brasil há repetidas eleições, hoje com mais de 130 milhões de eleitores, urnas eletrônicas, apuração rápida e outros enganosos sinais de vitalidade democrática. Nada disso garante uma representação eficaz, que só virá com o voto distrital e direto para o Legislativo, pois de fato vincula o representante aos representados e dá a estes condições de cobrar desempenho.

Pergunto ao leitor: quem é o seu deputado? Quando recorreu a ele? Quando prestou contas do seu trabalho? Aqui o "representante" fica distante do cidadão e, assim, solto para o que der e vier. Ou mesmo para quem vier e der.

Mas como trazer o sistema distrital? A decisão teria de vir de deputados federais e senadores, que se apoiam mutuamente para buscar votos e se conectam também com deputados estaduais e vereadores com o mesmo objetivo, todos eleitos pelo sistema proporcional. Na sua maioria, não querem mudar esse sistema podre, o que poria em risco sua reeleição. Ademais, são do instinto dos políticos mudanças apenas incrementais, e não radicais.

Por isso o caminho mais viável seria que o voto distrital começasse por eleições municipais e, de modo incremental, alcançasse as estaduais e federais. Mas fundamental mesmo deve ser a pressão de fora para dentro do Congresso, repetindo o movimento das Diretas-Já, com políticos que se disponham a encampar a ideia. E cabe repetir também o processo que levou à Lei da Ficha Limpa.

Quanto a isso, soube pela colunista Dora Kramer, neste jornal na terça-feira, que o Movimento de Combate à Corrupção Eleitoral busca assinaturas para levar ao Congresso um projeto de iniciativa popular de reforma política, num movimento ao qual a Ordem dos Advogados do Brasil aderiu. Presumo que o projeto inclua o voto distrital, sem o que não seria uma reforma política digna do nome.

*ECONOMISTA (UFMG, USP E HARVARD), PROFESSOR ASSOCIADO À FAAP, É VICE-PRESIDENTE DA ASSOCIAÇÃO COMERCIAL DE SÃO PAULO

quarta-feira, 21 de julho de 2010

Meu minidrama

Momentos são tempos independentes. Ela, só, mistério. Melancolia. A paixão amedronta. Sedução. A espera do príncipe que nunca chega. #mdrama

SP Escola de Teatro - Concurso Cultural Minidrama

sexta-feira, 16 de julho de 2010

Poema mais lindo da semana.

"E se eu te amo na quarta,
Não te amarei na quinta.
Isso pode ser verdade.
Por que você reclama?
Te amei na quarta sim, e daí?"


Edna Vincent Millay (1892-1948)

Ps: minha nova e sempre amiga querida @pammmmm que me enviou este poema em um comentário aqui, AMEI e AMO!

sábado, 10 de julho de 2010

Do meu jeito: meio caiçara, meio paulistana.

Paulista de nascença, paulistana de criação e praiana por paixão; paixão do meu pai – grego – que mergulhou no mediterrâneo e nas águas verdes brasileiras, na Ilha Grande, quando eu era criança. Observava-o com atenção, queria alcançar o impossível. O que era ruim, era a distância de São Paulo a Angra dos Reis, ficava pior quando tinha a interminável viagem: meu pai não parava (nunca) para eu fazer pipi.

Dança daqui, segura de lá, e o Landau, luxuoso, chegava na praia.

Anos se passaram, a praia continuava no meu sangue. Uma queda pelo interior - os cavalos - poderia se configurar uma traição; não, a paixão era forte. A “aborrecência” que diga. A história da descoberta dessa paixão começa no meu tio Flavio. Reza a lenda que, por conta de negócios, ele resolveu comprar uma casa em São Sebastião.

A casa da praia era simples, mais perto da estrada do que do mar. Suficiente para me conectar a qualquer mar, a qualquer uma das belas praias do litoral norte de São Paulo. Era de carona que eu ia. Sim, de carro, caminhão, moto, qualquer meio de transporte que aceitava o meu singelo aceno. Eis que eu colocava minha prancha nas costas e ia... “quero surfar em Maresias”. A praia de Maresias era no meio do nada, ou melhor, do mato. Para tomar uma água (doce), era um sacrifício. Andava, andava, andava numa espécie de deserto tropical. O mar era o antídoto e o contraste com a cidade de São Paulo servia para deixar a aventura cada vez mais interessante.

Lembro-me do dia que resolvi ir além; tinha de conhecer as praias seguintes, havia um campeonato de body board numa praia com o nome de Juquehy. Era só percorrer mais 15km... Sobe morro, vira, desce morro, Boiçucanga, Camburi, Barra do Sahy... Sentia que estava mais perto de São Paulo do que da casa do tio Flavio. Finalmente o destino. Não era UMA praia qualquer, mas a Praia de Juquehy. Barro era pouco pra enfrentar, chovia aquela chuva fininha. Foram horas pra chegar e minutos pra ficar - logo tinha de voltar. Aquilo era uma loucura na cabeça dos normais. O tio Falvio acabou descobrindo minhas caronas e me deu um castigo: tirou a praia dos meus fins de semana.

Tudo aquilo ficou guardado como um sonho de criança, misturando o mundo real ao lúdico das tradições, a areia da praia, o sol e a chuva, os amigos e o tio Flavio. Depois veio a minha vida adulta, as estradas melhoraram. Por conta disso, as casas, hotéis e pousadas proliferaram (não tinha mais casa do tio Flavio, ele não estava mais aqui). O desenvolvimento tomou conta. Parei de sofrer pelo caminho, pela liberdade e passei a culpar a praia. Enquanto minhas amigas iam a danceterias em São Paulo (ou mesmo em Maresias), eu passava quase todos os meus finais de semana no mar, tentando surfar, mas nunca saindo do lugar que eu considerava seguro. De volta a Sampa, tinha sempre a impressão de estar perdida...

Juquehy hoje não tem mais barro para enfrentar, mas asfalto. Não tem mais mato, tem especulação imobiliária. Eu, talvez, nem saiba surfar mais. Para minha tristeza e felicidade, Juquehy progrediu e acabou com os motivos pelos quais eu poderia argumentar minha ausência. Acabou por me mostrar o quanto eu fui privilegiada por um dia, alguns minutos, passar por lá. Recomeçou por me mostrar esse lugar incrível que agora estou. E hoje, me culpo por não ter desculpa pra não vir mais...

sexta-feira, 9 de julho de 2010

Revolução Constitucionalista - SP, 9 de julho.

FOLHA DE SP - TENDÊNCIAS/DEBATES

1932 - Constituição e cidadania

MARCO ANTONIO VILLA


A tarefa que se colocou para vencedores (e para vencidos) foi a de recolocar a política como elemento central no enfrentamento de problemas

A Revolução Constitucionalista de 1932 foi o maior conflito bélico da história brasileira do século 20. Foram mais de 100 mil homens combatendo. Estima-se que o Exército federal teve cerca de 55 mil homens nas frentes de batalha; os constitucionalistas, aproximadamente 30 mil soldados -dos quais 10 mil eram voluntários-, e mais de 30 mil das forças policiais do Rio de Janeiro, Minas Gerais, Rio Grande do Sul e Mato Grosso.
A guerra acabou ficando restrita fundamentalmente a São Paulo: o apoio sinalizado por Flores da Cunha, interventor no Rio Grande do Sul, não ocorreu, e as oposições estaduais também não tiveram força militar para criar outros focos de rebelião, mesmo onde havia apoio popular, como no Pará, Rio Grande do Norte e Piauí.
No Rio Grande do Sul, ocorreram alguns combates, mas acabaram derrotados. Em Minas Gerais, o máximo que os rebeldes conseguiram foi a tomada da cidade de Pirapora por três dias.
O maior apoio aos constitucionalistas veio de Mato Grosso: o sul do Estado foi o teatro de violentos combates e o Exército federal deslocou milhares de homens para lá. No Rio de Janeiro ocorreram principalmente manifestações estudantis, e as passeatas foram duramente reprimidas pela polícia.
A indecisão no avanço pelo Vale do Paraíba em direção à capital federal, que poderia, pela surpresa, criar sérias dificuldades ao governo, a ausência de apoios militares em outros Estados e o fechamento dos portos paulistas -especialmente o de Santos- pela Marinha selaram a sorte militar da Revolução já na segunda quinzena de julho. A derrota seria só uma questão de tempo.
A rendição dos constitucionalistas foi considerada uma traição. O governo civil imputou à Força Pública ter assinado a paz em condições humilhantes. Ledo engano. A resistência militar seria inútil, além de criar uma fratura social e política de proporções inimagináveis. A tarefa que se colocou para os vencedores (e para os vencidos) foi a de recolocar a política como elemento central no enfrentamento dos problemas nacionais.
Nunca mais o Brasil teve uma guerra civil. Os principais líderes foram presos, tiveram seus direitos políticos suspensos e dezenas foram exilados. Um ano depois, a maioria já tinha regressado ao Brasil, devido aos indultos concedidos pelo governo.
O ano de 1932 faz parte da luta pela liberdade e pela democracia. A questão central foi a convocação de Assembleia Constituinte e a realização de eleições livres (a Constituição de 1891 estava suspensa e inexistia o Poder Legislativo). Em país marcado pelo autoritarismo -e em uma década com fascismo, nazismo, stalinismo, franquismo etc.-, aqui em São Paulo foi gestada uma revolução, que, como destacou o jurista Hélio Bicudo, "se constituiu no maior movimento popular de caráter democrático a que assistimos no Brasil".

MARCO ANTONIO VILLA, historiador, é professor da Universidade Federal de São Carlos e autor, entre outros livros, de "1932: Imagens de uma Revolução" (Imprensa Oficial).

domingo, 4 de julho de 2010

O que há entre Ela, e Ele diz...


Há uma prosa, não um romance; há quem entrosa, mas fora de alcance.
Entre as palavras que há em minha boca, há uma que não mais falarei...


Ele diz: você não vai me pedir em namoro?
Ela diz: quem pede "em namoro" é o menino, e não a menina.
Ele diz: então tá, você quer namorar comigo?
Ela diz: sim.
Há um diálogo com cara de monólogo; há uma porta que fechei até o fim do mundo.
Ele diz: eu sei tanta coisa, você nem imagina.
Ela diz: e, por acaso, você sabe por que eu fico com você?
Ele diz: claro, porque você gosta...
Há uma rua próxima proibida a meus passos.

sexta-feira, 2 de julho de 2010

DATAFOLHA 2/07/2010 - Uma boa análise!

O jogo da sucessão ainda não está jogado
por Vinicius Mota - Folha de SP, 2/07/2010

Ao final de 2010, a atividade econômica ao longo do segundo mandato de Lula terá crescido, em média, perto de 4,5% ao ano, cifra que cai para 4%, considerados os oito anos. Desde a ditadura militar - no quarto de século até 1980, o Brasil cresceu 7,5% ao ano- não se registra resultado tão positivo. Quanto menor a renda, mais depressa ela cresce, o que diminui a desigualdade de salários.

A recente Pesquisa de Orçamentos Familiares, do IBGE, mostrou que a pobreza é menor que se imaginava. Há uma geração não se vê taxa de desemprego, em torno de 7%, tão baixa. A popularidade do presidente da República bateu novo recorde de alta.

Se imperasse o determinismo econômico em eleição, era de esperar que a candidata da situação estivesse a ponto de liquidar a fatura no primeiro turno. Mas, a 94 dias do pleito, Dilma Rousseff continua empatada com José Serra.

As eleições de 2002 e de 2006 mostraram a dificuldade de ocorrerem lavadas na eleição presidencial brasileira.

Nos dois pleitos- em ambos as chamadas condições objetivas favoreciam Lula-, o tucano derrotado teve pouco menos de 40% dos votos válidos no segundo turno. Serra é competitivo porque mantém frente de 11 pontos percentuais no Sudeste, na hipótese de segundo turno contra Dilma. Em 2006, Lula bateu Geraldo Alckmin por 14 pontos na região.

Serra também supera o desempenho de Alckmin no Nordeste. Tem 35% (39%, desprezadas intenções de voto em branco, nulo e indecisos), contra 54% (ou 61%, fazendo a mesma subtração) da petista.

No 2º turno de 2006, o candidato tucano obteve apenas 23 de cada 100 votos válidos nordestinos. É muito mais difícil explicar o fenômeno sociológico que sustenta uma divisão quase ao meio do eleitorado brasileiro.

Circulou, faz pouco tempo, a tese de que os petistas souberam cativar um certo conservadorismo das classes populares que iam ganhando poder de consumo -e isso teria desequilibrado a balança o suficiente para reeleger Lula.

Não terá, contudo, esse ganho de status recente operado uma certa “sudestização” de todo o eleitorado brasileiro?

Quando as necessidades mais básicas da maioria das famílias deixam aos poucos de ser um tema central, não terá a disputa eleitoral mudado de parâmetros? Aspectos como os valores (culturais, morais, sociais) não passariam a ter mais relevo?

Não sabemos. Sabemos apenas que o jogo que vai definir o sucessor de Lula, apesar da impressionante maré favorável da economia, não está jogado.

quinta-feira, 10 de junho de 2010

Tempo, sem controle, nem remoto e o coração.

Ergo uma perna e a apóio no banquinho marrom - aquele que meu tio (ai, que saudade dele) me deu de dúzia. Calço a bota que me leva livre por aí. Meu passo revolta o silêncio nos primeiros dias de junho. Sim, junho. Penso sem começos e fins de semanas. Maio decidiu voar enquanto junho engatinha tímido. Tento acomodar a cabeça no travesseirinho como quem deita no peito amado. Descubro segredos naquela voz de sentimentos contidos. Abstrações passam o tempo. Invisíveis e excitantes, de enfrentamento e de vontades, perambulam pelos cantos, fuxicam a meu redor. Pensei. Também pensei que alguém estava certo quando disse que uma das virtudes dos príncipes encantados é saber esperar. E outro alguém também estava certo quando disse que não existem níveis seguros pra existir. Nem pra atender ao chamado! Meu corpo inquieta o ar. Penso demais. Não é que eu esteja a fim da casa, é que não estou a fim da rua. Esses tempos me desligam e não tenho controle, nem mesmo um remoto. Seria preciso contar os abismos, juntar todos numa garrafa e jogá-los ao mar. Aí então, claro, claro que se poderia abrir a janela com esplendor. O tempo, que há tempos não é mais meu, voa por não sei onde. Sigo o barulho intenso do coração; coração meu que não conhecia… Mas o problema é que não existem níveis seguros. Não, não existem.

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Poema mais lindo da semana.

POEMA EM LINHA RETA

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...
Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

Álvaro de Campos (heterônimos Fernando Pessoa)

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Pensamento da noite

"No momento em que nos comprometemos, a providência divina também se põe em movimento. Todo um fluir de acontecimentos surge ao nosso favor. Como resultado da atitude, seguem todas as formas imprevistas de coincidências, encontros e ajuda, que nenhum ser humano jamais poderia ter sonhado encontrar. Qualquer coisa que você possa fazer ou sonhar, você pode começar. A coragem contém em si mesma, o poder, o gênio e a magia.”
(Goethe)

sábado, 24 de abril de 2010

Vou-me embora pra Pasárgada

Vou-me embora pra Pasárgada
Aqui eu não sou feliz
Lá a existência é uma aventura
De tal modo inconseqüente
Que Joana a Louca de Espanha
Rainha e falsa demente
Vem a ser contraparente
Da nora que nunca tive

E como farei ginástica
Andarei de bicicleta
Montarei em burro brabo
Subirei no pau-de-sebo
Tomarei banhos de mar!
E quando estiver cansado
Deito na beira do rio
Mando chamar a mãe-d'água

Pra me contar as histórias
Que no tempo de eu menino
Rosa vinha me contar
Vou-me embora pra Pasárgada

Em Pasárgada tem tudo
É outra civilização
Tem um processo seguro
De impedir a concepção
Tem telefone automático
Tem alcalóide à vontade
Tem prostitutas bonitas
Para a gente namorar

E quando eu estiver mais triste
Mas triste de não ter jeito
Quando de noite me der
Vontade de me matar

— Lá sou amigo do rei —

Terei a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada.


Manuel Bandeira
Texto extraído do livro "Bandeira a Vida Inteira", Editora Alumbramento – Rio de Janeiro, 1986, pág. 90

domingo, 18 de abril de 2010

Vale a pena ler este artigo!

Brasília: epopeica, cara e esbanjadora
(artigo publicado na revista Veja em 18-04-2010)

*Por Mailson da Nóbrega

Nos seus cinqüenta anos, Brasília acumulou feitos e defeitos. Nos feitos, realça a epopéia de sua construção. O Brasil edificou do nada uma cidade com avançada concepção urbanística. Vencemos, aos olhos do mundo, o imenso desafio de planejar, construir e inaugurar uma cidade complexa e moderna em menos de quatro anos.
A transferência da Capital para o Planalto Central constou da primeira Constituição da República (1891), que reservou à União uma área de 14.400 quilômetros quadrados “para nela estabelecer-se a futura capital federal” (art. 3º). Juscelino Kubitschek, o grande presidente, elegeu Brasília como meta, que cumpriu com liderança e determinação.
A medida tinha a ver com segurança. No interior do país, a Capital ficaria mais protegida do que no litoral. Invasões por mar eram mais difíceis de rechaçar, pois permitiam o bombardeio ainda no oceano, minando resistências. A aviação militar e a tecnologia de foguetes de longo alcance envelheceram essa idéia.
Brasília seria um polo irradiador de progresso. Reproduziria, no coração do país, o dinamismo das áreas litorâneas. Muito lógico, particularmente depois que o estado se tornou central no processo de desenvolvimento. Uma inspiração teria sido a capital americana, transferida de Filadélfia para Washington em 1800.
Havíamos imitado os EUA na organização política (federação) e no nome do país (Estados Unidos do Brasil, hoje República Federativa do Brasil). Era natural imitá-los na localização da Capital. Acontece que Washington e sua posição geográfica tiveram motivação distinta daquela da capital do Brasil.
A Constituição americana (1787) estabeleceu que a União possuiria o poder de tributar, forças armadas e território próprio. Acordo político fixou a capital no sul. Lei de 1790 deu ao presidente o poder de eleger o local do Distrito de Colúmbia, onde está a Capital. Ele a situou entre os estados de Virgínia e Maryland.
Brasília contribuiu para o desenvolvimento regional, mas isso viria naturalmente com as rodovias, a queda dos custos de transporte e comunicações, e a ocupação produtiva dos cerrados, impulsionada pela tecnologia da Embrapa e pela imigração de produtores da região sul.
A Constituição de 1988 deu privilégios e autonomia política a Brasília (que Washington não tem). À União cabe “organizar e manter a polícia civil, a política militar e o corpo de bombeiros do Distrito Federal, bem como prestar assistência financeira ao Distrito Federal para a execução de serviços públicos, por meio de fundo próprio” (inciso XIV, art. 21).
Pelo Fundo Constitucional do Distrito Federal (2002), a União lhe transfere recursos ao ritmo de crescimento das receitas federais. Brasília arrecada os tributos atribuídos aos estados e municípios. Com despesas de segurança, saúde e educação custeadas pela União, a Capital pode expandir os demais gastos de pessoal sem ferir a Lei de Responsabilidade Fiscal. Os salários de seus funcionários são generosos.
Brasília tem a maior receita pública per capita, quase o dobro da média nacional. Com despesas de segurança por conta da União, seus policiais têm os melhores salários. As taxas de homicídios estão, todavia, entre as piores do país. Outras mazelas podem ser vistas em estudo de Oliveira Alves Pereira Filho (www.stn.gov.br/Premio_TN/XIVPremio/corpo_mono_prem_pr14_temas2.html).
O autor assinala que a abundância de recursos gerou uma situação na qual “o governo local se ‘une’ à burocracia, concedendo a esta maiores ganhos, viabilizados pelo restante da nação, em troca de benefícios político/eleitorais que permitem a esses gestores a permanência no poder”.
Fernanda Brollo e outros pesquisadores mostram que um acréscimo de 10% nas transferências federais aos estados e municípios acarreta uma elevação de 12 pontos percentuais na corrupção (www.nber.org/papers/w15705). Dá para entender por que Brasília é palco de grandes escândalos.
Estudos provam que os contribuintes do restante do país não precisam continuar a financiar Brasília nem suas elevadas despesas. No cinqüentenário da Capital, valeria refletir sobre os seus privilégios. Seria a oportunidade para discutir como melhor financiar todos os estados e municípios.

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Volver... (Meu tweet #5000)

Yo adivino el parpadeo
De las luces que a lo lejos
Van marcando mi retorno
Son las misma que alumbraron
Con su pálido reflejo
Unas horas de dolor
Y aunque no quise el regreso
Siempre se vuelve
Al primer amor
La vieja calle
Donde le cobijo
Tuya es su vida,
Tuyo es su querer
Bajo el valor de las estrellas
que con indiferencia
Hoy me ven volver
Volver...
Con la frente marchita
La nieve del tiempo
la aclaro en mi cien
Sentir...
que es un soplo la vida
que veinte años no es nada
que febril la mirada
Hurrante entre la sombra
Te busca y te nombra
Vivir...
Con el alma ferrada
A un dulce recuerdo
que lloro otra vez

Tengo miedo del encuentro
Con el pasado que vuelve
A enfrentarse con mi vida
Tengo miedo de la noche
que poblada de recuerdo
Encadenan mi soñar
Pero el viajero que huye
Tarde o temprano
Detiene su azar
Y aunque el olvido
que todo lo destruye
aya matado
A mi vieja ilusión
Cuarto escondida
Y una esperanza humilde
que es toda la fortuna
De mi corazón
Volver...
Con la frente marchita
La nieve del tiempo
La aclaro en mi cien
Sentir...
que es un soplo la vida
que veinte años no es nada
que febril la mirada
herrante entre la sombra
Te busca y te nombra
Vivir...
Con el alma ferrada
A un dulce recuerdo
que yo notare...


quarta-feira, 7 de abril de 2010

Chega de saudade

Editorial da Folha de 07-04-2010
*
EM SEU PRIMEIRO discurso depois de deixar a Casa Civil, a candidata Dilma Rousseff insistiu na tentativa de comparar o atual governo com o anterior.

Não se sabe o que pesa mais nessa estratégia enviesada, se a obsessão íntima do presidente Luiz Inácio Lula da Silva de se medir com o antecessor Fernando Henrique Cardoso ou a percepção de que é mais vantajoso para a representante da situação transformar eleições que decidem o futuro do país em avaliação de fatos passados.
Não é demais lembrar que um brasileiro com 18 anos completados em 2010 comemorava 10 ao término do governo FHC -e era uma criança de dois anos quando o sociólogo tucano assumiu.

Esse hipotético cidadão não terá idade para lembrar em que país se vivia no início da década de 90. Mas, se procurar informações, saberá que coube a FHC, na sequência do impeachment de Fernando Collor, e ainda no governo de Itamar Franco, lançar um plano -depois de várias tentativas frustradas- capaz de superar o perverso ciclo hiperinflacionário que havia anos dilapidava a economia popular e impedia o desenvolvimento do país.

Se pretende incursionar pelo passado, poderia a candidata lembrar a seus potenciais eleitores que o Partido dos Trabalhadores negou sustentação ao presidente Itamar Franco e bombardeou o Plano Real. Ou seja, opôs-se de maneira pueril e ideológica a uma das mais notáveis conquistas econômicas da história moderna do país, que propiciou aos brasileiros pobres benefícios inestimáveis, sob a forma de imediato aumento do poder aquisitivo e inédito acesso ao sistema bancário.

Sabe bem a ex-ministra que se alguém nesses anos mudou de pele foi antes o PT do que o PSDB. O que terá sido a famosa “Carta aos Brasileiros” senão uma providencial e pública troca de vestimenta ideológica do candidato Lula -que, eleito, sob aplausos do mundo financeiro, indicou um tucano para o Banco Central (agora no PMDB) e um ex-trotskista com plumagem neoliberal para a Fazenda?

É um exercício vão buscar comparações e escolhas plebiscitárias entre gestões que se encadeiam no tempo. Os avanços e problemas de uma transformam-se em acúmulo ou em fatos acabados na outra. Ou será que faz sentido questionar como teria sido a gestão lulista se tivesse de formular um plano para vencer a hiperinflação, precisasse sanear instituições financeiras públicas e se visse obrigada a estancar uma crise sistêmica dos bancos privados nacionais?

O Brasil precisa pensar e agir com olhos no futuro. Nada tem a ganhar com a tentativa da candidatura governista de forjar uma revanche de disputas pretéritas. Se o presidente Lula não venceu a contenda com Fernando Henrique Cardoso em 1994 não será agora que o fará -pelo simples motivo de que nenhum dos dois é candidato. O governo que se encerra neste ano teve méritos inegáveis, mas muitos deles, é forçoso reconhecer, nasceram de sementes plantadas no passado.

terça-feira, 23 de março de 2010

Execelente artigo de Bresser-Pereira

Resgate da política

Por Luiz Carlos Bresser-Pereira - Folha de S. Paulo, 22/03/10


SEMPRE AFIRMO que a política é a mais nobre e a mais importante das profissões. É a mais nobre porque apenas homens e mulheres dotados da capacidade de tomar decisões e de qualidade moral são capazes de exercê-la bem. É a mais importante porque a política influencia nossas vidas para o bem ou para o mal, porque é por meio dela que somos governados.

Essa afirmação sobre a nobreza da política sempre causa surpresa em meus interlocutores, porque leem todos os dias notícias sobre a corrupção dos políticos. Assim, a política não estaria associada à virtude da nobreza, e sim ao vício da corrupção.

Foi, portanto, com alegria que li no “Estado de S. Paulo” (14/3) uma entrevista de José Serra a Dora Kramer na qual ele defende “uma prática transformadora na política brasileira, começando pelo repúdio ao mote fatalista e reacionário de que a desonestidade é inerente à vida pública, que o poder necessariamente corrompe o homem”.

Terá razão o governador paulista ao rejeitar a visão reacionária da política? Estarei eu correto quando defendo a política apesar dos constantes deslizes dos políticos? Para responder a essas questões, devemos considerar dois conceitos básicos.

O Estado é o sistema constitucional-legal e o aparelho público que o garante; é o instrumento por excelência de ação coletiva da nação; é a lei e a administração pública; é a expressão maior da nossa racionalidade coletiva.

A política, por sua vez, é a prática de argumentar e fazer concessões mútuas para alcançar o poder político e é a arte de governar o Estado moderno que foi inicialmente liberal e depois se tornou democrático. É por meio da política que reformamos permanentemente a sociedade e o Estado para que esse cumpra seu papel contribuindo de forma efetiva para os grandes objetivos políticos das sociedades modernas: segurança, autonomia nacional, desenvolvimento econômico, liberdade, justiça social e proteção do ambiente. Podemos obter algum sucesso na busca individual de nossa felicidade e segurança econômica. Entretanto, os demais objetivos políticos, e mesmo esses dois que acabei de citar, somente poderão ser atingidos por meio da construção política do Estado.

Não podemos esquecer que, conforme ensinou Max Weber, a ética na política é diferente da ética pessoal: é uma ética da responsabilidade, não da convicção. Para governar e promover o bem público, o político deve buscar a maioria e, para isso, é obrigado a fazer acordos ou compromissos que um indivíduo não precisa fazer. Não devemos, porém, confundir com a corrupção essa ética baseada na responsabilidade do político em alcançar bons resultados para a sociedade que governa.

Não se justifica, portanto, a tese do caráter intrinsecamente corrupto da política. A política é o grande instrumento de que dispõe a sociedade para reformar seu Estado. Só por meio da lei e da administração pública que a garante progrediremos na busca da segurança, da liberdade e da justiça. A identificação da política com busca exclusiva do poder pessoal e da riqueza é uma tese neoliberal e autoritária que desmoraliza a política para, assim, legitimar o governo das elites.

Precisamos ser implacáveis em relação à corrupção, mas não é por meio do moralismo negativista que lograremos atingir nossos grandes objetivos políticos. Para isso, não temos alternativa senão pensar a política em termos republicanos de virtude cívica e busca do bem comum.

Só assim estaremos fortalecendo nosso grande instrumento de ação coletiva que é o Estado.

*LUIZ CARLOS BRESSER-PEREIRA, 75, professor emérito da Fundação Getulio Vargas, ex-ministro da Fazenda (governo Sarney), da Administração e Reforma do Estado (primeiro governo FHC) e da Ciência e Tecnologia (segundo governo FHC), é autor de “Globalização e Competição”.
Website
E-mail: bresserpereira@gmail.com

terça-feira, 9 de março de 2010

Sobre amor e poesia.

"Pois, nos seios mesmo da paixão, nunca se deve tratar de "conhecer perfeitamente o outro": por mais que progridam neste conhecimento, a paixão restabelece constantemente entre os dois este contato fecundo que não pode se comparar a nenhuma relação de simpatia e os coloca de novo em sua relação original: a violência do espanto que cada um deles produz sobre o outro e que põe limites a toda tentativa de apreender objetivamente este parceiro. É terrível de dizer, mas , no fundo, o amante não está querendo saber "quem é" em realidade seu parceiro. Estouvado em seu egoísmo, ele se contenta de saber que o outro lhe faz um bem incompreensível... os amantes permanecem um para o outro, em última análise, um mistério."

*Da incrível Lou Salomé

segunda-feira, 8 de março de 2010

8 de março

Bom artigo de Marina Silva* em homenagem ao Dia da Mulher

O DIA INTERNACIONAL da Mulher, celebrado hoje, é momento para colocar em foco não só as conquistas mas também as desigualdades que ainda afetam as mulheres. Essa comemoração, que completa cem anos, deve servir para reafirmar a busca pela igualdade entre os gêneros e o inestimável valor da contribuição feminina para a humanidade.

Não se pode ter um mundo sustentável, justo e democrático se permanecem as várias formas de opressão sobre mais da metade da população do planeta, formada pelas mulheres. Nunca é demais lembrar que homens e mulheres se complementam, mas essa que deveria ser a principal qualidade das relações de gênero é muitas vezes deixada de lado pela prevalência da cultura masculina da dominação.

Seria benéfico para todos se o olhar e a perspectiva feminina estivessem mais presentes na vida social e, especialmente, nos espaços públicos onde se tomam as decisões de interesse coletivo.

O Ibase identificou, no ranking do Índice de Gênero (IEG), pesquisado em 150 países, conforme dados da PNAD 2006, que o Brasil ocupa uma posição intermediária entre os melhores e os piores países nessa questão. São várias as causas pelas quais permanecem os obstáculos enfrentados pelas mulheres. Apesar do avanço no plano educacional -hoje elas têm, em média, mais anos de estudos do que os homens, mas não existe ainda igualdade na renda, nos cargos e salários e na representação política.

As desigualdades de gênero estão em todas as classes sociais, e se tornam mais dramáticas quando a renda diminui. Estudo recente realizado pelo economista André Urani mostra que, em 1993, havia 32,4 milhões de pessoas em condições de extrema pobreza no país, das quais 5,5 milhões viviam em domicílios chefiados por mulheres. Em 2008, o universo da extrema pobreza foi reduzido à metade (15,8 milhões), mas ficou praticamente inalterado (5,2 milhões) o número de pessoas nessa categoria em lares chefiados por mulheres.

Isso ocorre porque elas enfrentam a miséria em condições ainda mais adversas do que as outras famílias. Sozinhas, têm o desafio de dar educação aos filhos e livrá-los da fome e da violência, enquanto se desdobram em sua jornada dupla, com salários baixos e pouca ajuda do Estado.

As homenagens de hoje são justas e bem-vindas, mas o que todas as brasileiras esperam é, em primeiro lugar, uma vida digna, onde possam desenvolver suas potencialidades, bem como a de seus filhos e filhas, e, assim, construir um país melhor, mais justo, mais fraterno, mais feliz.


*Marina Silva é professora de ensino médio, senadora (PV-AC) e ex-ministra do Meio Ambiente. Artigo publicado originalmente no jornal Folha de São Paulo.

segunda-feira, 1 de março de 2010

Poesia da semana..

Beijo pouco, falo menos ainda
Mas invento palavras
Que traduzem a ternuar mais funda
E mais cotidiana
Inventei, por exemplo, o verdo teadorar
Intransitivo: Teadoro, Teodora

(Manuel Bandeira)

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Um excelente editorial da Folha...

Sobre o "Plano Nacional de Bandalheira Larga" (nome dado ao Plano do governo Lula por Reinaldo Azevedo... dispensa comentários rsrs). Reproduzo o editorial abaixo, vale a pena ler.

Banda turva

A CADA ENXADADA, uma minhoca. Natural da cidade de Passa-Quatro, no sul de Minas Gerais, José Dirceu certamente conhece esse dito popular, segundo o qual basta procurar para encontrar.

E minhocas não parecem faltar quando o assunto são os negócios de consultoria a que passou a se dedicar o ex-ministro do governo Lula. Desde que deixou a Casa Civil e teve o mandato de deputado cassado pela Câmara, em 2005, acusado de ser o mentor do mensalão, Dirceu tem se mostrado uma figura equívoca. A militância política e a atividade profissional, os contatos no mundo privado e as incursões pelos porões do poder público se misturam nebulosamente na vida deste personagem anfíbio.

O próprio Dirceu, vale dizer, alimenta uma certa mitologia em torno de seu personagem, sem que se saiba quanto disso é lobby de si próprio e quanto corresponde à influência que ainda exerceria sobre setores do Estado e da máquina petista.

Em 2007, numa longa entrevista à revista “Playboy”, a certa altura ele explicava seu trabalho nos seguintes termos: “No fundo, o que eu faço é isso: analiso a situação, aconselho. Se eu fizesse lobby, o presidente saberia no outro dia. Porque, no governo, quando eu dou um telefonema, modéstia à parte, é um telefonema! As empresas que trabalham comigo estão satisfeitas. E eu procuro trabalhar mais com empresas privadas do que com empresas que têm relações com o governo”.

Primeiro, há esses telefonemas com exclamação, que mais mereceriam pontos de interrogação. Segundo, há o fato incontestável de que Dirceu trabalha, sim, com empresas que têm relações com o governo. Como revelou esta Folha, é o caso da consultoria que prestou ao empresário Nelson Santos entre 2007 e 2009, pela qual recebeu R$ 620 mil.

Dono de uma “offshore” num paraíso fiscal, Santos adquiriu em 2005, por R$ 1, uma participação na Eletronet, empresa em processo de falência que o governo Lula planeja recuperar para usar seu principal ativo -uma rede de 16 mil km de fibras óticas- na oferta de internet a 68% dos domicílios até 2014.

É no mínimo uma coincidência sugestiva o fato de que a massa falimentar da Eletronet tenha sido convertida em ouro pelo governo meses depois da contratação de Dirceu por Santos.

Qualquer que seja o desfecho dessa história, ela constitui o mais recente capítulo do que se tem procurado ocultar sob a retórica do “Estado forte” lulo-petista: a aliança entre empresas privadas favorecidas pelo poder e grupos de interesse aninhados no Estado e no partido.

A operação de compra da Brasil Telecom pela Oi/Telemar, que demandou mudanças importantes na legislação e contou com forte injeção de dinheiro do Banco do Brasil e do BNDES, é um exemplo acabado do neopatrimonialismo em curso no país.

Com seu maquiavelismo de almanaque, Dirceu apenas mostra de maneira mais didática o que se tornou diretriz de governo.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Parafraseando Churchill...

"O vício inerente ao petismo é a distribuição desigual de benesse e a distribuição por igual das misérias"

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Quer saber a diferença entre Serra e Dilma? Leia este ótimo texto...

“Quem sou eu e quem és tu”

Claudio Salm, Jornal dos Economistas, RJ, nº 246, 17/02/10

Pergunta do JE - Frente a possível disputa presidencial entre Dilma e Serra, quais os caminhos do Estado, da política econômica e de distribuição de rendas no Brasil, caso um desses dois candidatos venha a presidir o país? Haveria diferenças?

Resposta de Claudio Salm (IE-UFRJ):

Não dispomos ainda dos programas de governo para confrontar. Serra não se pronunciou sobre quais serão as suas prioridades. Dilma tampouco. Não que programas de governo sejam sempre decisivos - veja-se a distância entre o programa e o governo do PT. Mas seria um ponto de partida para responder às perguntas formuladas. Qualquer resposta, por enquanto, terá que ser fortemente especulativa.

Vou aceitar a provocação do presidente Lula e responder na base do “quem sou eu e quem és tu”. Para poupar o esforço dos que iriam com sofreguidão ao Google em busca de algo que pudesse revelar quais seriam as minhas “verdadeiras intenções”, declaro desde logo que sou eleitor do Serra.

Do ponto de vista programático não cabe pensar em Serra como reedição de FHC, dado que existem diferenças expressivas entre eles. Já o mesmo não pode ser dito de Dilma em relação a Lula. Tutelada por ele, Dilma irá prometer fazer “mais do mesmo”. Sublinho, irá prometer. O problema é que será muito difícil cumprir.

A trajetória seguida até aqui leva inexoravelmente, e em curto prazo, a problemas que, se não forem atacados prioritariamente, irão nos colocar em situação bem delicada. Refiro-me às bombas já instaladas nas contas fiscais e nas contas externas. Esta última deverá explodir logo. Caminhamos para um déficit em Conta Corrente que em 2011 poderá ser da ordem de 5% do PIB! Para evitar o aumento do peso relativo da dívida pública, será preciso manter elevadas taxas de crescimento do PIB, o que será impossível face à reduzida taxa de investimento, especialmente a do investimento público federal, da qual depende a superação dos nossos gargalos em infraestrutura.

Sem mostrar como enfrentar os problemas mencionados, será mera tagarelice apenas declarar a intenção de promover o crescimento com distribuição de renda, respeito ao meio-ambiente e com o fortalecimento da soberania e da defesa nacional.

Quanto à política macroeconômica, quem tem insistido mais na denúncia da perversidade da nossa combinação juros & câmbio? Eu nunca ouvi uma palavra de Dilma a respeito. Qual dos dois, como presidente, teria melhores condições para romper com os juros altos e o dólar barato? Seria Serra, sem dúvida, que, além de saber economia, não tem, como Dilma, o compromisso de indicar o presidente do BACEN que mais agrade aos bancos. Somente para efeito de raciocínio: se apenas algo como a metade do que se gasta com juros da dívida pública fosse transferido aos 30% mais pobres, o Brasil acabaria com a pobreza e teria uma distribuição de renda das mais “normais”.

Lula é unanimidade em Davos, não em Porto Alegre. Tornou-se o darling do capital financeiro e não é pra menos. O Brasil é considerado hoje um porto seguro para o capital especulativo, verdadeira casa da mãe Joana.

Serra não deixa dúvida quanto ao que pensa sobre o papel do Estado. Nunca comprou o mito neoliberal do estado mínimo, ao contrário, a expressão “ativismo governamental” já é um refrão associado a ele. Basta ver a engenhosidade com que promoveu o investimento público em São Paulo, e fez isso nas difíceis condições da crise recente, sujeito às limitações legais que mesmo em tempos normais dificultam o investimento público estadual, mas não o da União. O mesmo deve ser dito em relação às políticas sociais. O “ativismo governamental” de Serra, em São Paulo, na Saúde e na Educação técnica e tecnológica, é marcante.

É verdade que nos governos FHC, o BNDES foi levado a destinar grande parte de seus financiamentos para a privatização. Mas esse desvio jamais contou com o entusiasmo de Serra, que elogiou de público o desempenho de Luciano Coutinho à frente do banco. Outro exemplo importante a ser lembrado foi a não rejeição de Serra à idéia da criação de uma empresa estatal para gerir o Pré-Sal. Só por ignorância ou má fé alguém poderia atribuir a Serra uma postura privatista dogmática.

Utilizar os enormes investimentos da Petrobrás para fazer política industrial e desenvolver nossa petroquímica, nossa indústria naval, é algo que faz parte do bê-á-bá da cartilha de Serra. Isso, no entanto, não significa que iria permitir a construção aqui de plataformas com custos incrivelmente maiores que as importadas e com índices de nacionalização fajutos, só pra inglês ver, como vem sendo feito.

No enfrentamento dos nossos grandes desafios energéticos, embora Serra seja um entusiasta da hidroeletricidade, trataria com muito mais cuidado os impactos ambientais das construções das usinas de grande porte com seus lagos podres. Dilma sempre demonstrou descaso pelas questões ambientais. As audiências públicas promovidas para ouvir as populações afetadas pela construção de Belo Monte, no Xingu, foram pro forma.

Infelizmente, será necessário repetir sempre que Serra não irá promover qualquer retrocesso no Bolsa Família que ele entende ser um bom instrumento de combate à pobreza, cujas raízes vêm do governo FHC. Mas, quanto à distribuição de renda, irá propor também outros mecanismos, entre os quais uma reforma fiscal que torne a arrecadação menos onerosa para os mais pobres, tal como é feito nos países desenvolvidos. Lula não demonstrou qualquer empenho nesse sentido.

No plano político, nessa eleição vai-se tentar explorar a “síndrome do Flamengo”, ou seja, a identificação ideológica do eleitorado de esquerda, ou mais à esquerda, com a candidatura Dilma. Mas não vai pegar. Não seria possível fazê-lo a partir das biografias de cada um nem, muito menos, a partir de alianças e apoios. Dilma conta com o apoio de Sarney e de Collor e, se puder, deverá ter o Meirelles como vice, como tudo indica ser o desejo de Lula. E dos banqueiros.

A força de Dilma é o “Lulismo”, não o PT. O “Lulismo”, por sua vez, como tão bem nos explicou o André Singer, assenta-se principalmente no segmento mais pobre e desorganizado da sociedade e cujo maior anseio é a ordem imposta de cima. Uma postura de “direita”. Essa liga – banqueiros com o “subproletariado”, para usar o termo de Singer – é, conceitual e historicamente, a base do fascismo. Aguardo análises de cientistas políticos que mostrem que aqui é diferente. O sindicalismo petista irá se mobilizar contra o Serra. E daí? Sindicatos e confederações cujos dirigentes aboletaram-se em cargos públicos? Ou, até mesmo em cargos de órgãos patronais, como o SESI? Não é, pois, na dimensão ideológica que eu poderia encontrar qualquer motivação para preferir Dilma a Serra, muito pelo contrário.

Se levarmos em conta a biografia, o currículo, a experiência, em minha opinião Serra dá de dez a zero na Dilma, tanto como líder político quanto como administrador público. Trata-se de comparar lucidez, conhecimento, capacidade executiva e de iniciativa, seja como parlamentar, seja como ministro, prefeito ou governador. Serra não precisa passar por nenhum treinamento e dispensa personal marqueteiros.

Serra mostrou criatividade no levantamento de recursos para investimentos em São Paulo. Basta comparar o que Serra fez nessa matéria com a mediocridade do investimento federal. Ou com o que fez como ministro da Saúde em quatro anos, comparado aos oito anos do governo Lula. Qual a experiência executiva da Dilma? O PAC não passa de uma juntada de projetos fragmentados. E a experiência política? Serra foi o mais produtivo parlamentar do seu período, deputado e senador, além de lidar bem com vereadores e deputados estaduais, quando prefeito e governador, sem lotear os altos cargos da administração. E Dilma?

Com o fim da guerra fria e da União Soviética acabou o mundo bipolar. Surgiram novos centros de poder e o Brasil é um deles, o que exige, ademais de dotar nossas forças armadas de efetivo poder dissuasório, aproximação e diálogo com outros centros emergentes de poder regional como é o caso do Irã, a maior potência do Oriente Médio. É compreensível, mas não justifica termos recebido com pompa e circunstância o títere da teocracia obscurantista iraniana. Serra jamais teria permitido que o País passasse pelo constrangimento daquela visita, qualificada por ele como “indesejável”.

domingo, 7 de fevereiro de 2010

Excelente artigo de FHC!

Sem medo do passado

*Fernando Henrique Cardoso

O presidente Lula passa por momentos de euforia que o levam a inventar inimigos e enunciar inverdades. Para ganhar sua guerra imaginária distorce o ocorrido no governo do antecessor, autoglorifica-se na comparação e sugere que se a oposição ganhar será o caos. Por trás dessas bravatas estão o personalismo e o fantasma da intolerância: só eu e os meus somos capazes de tanta glória. Houve quem dissesse: "O Estado sou eu." Lula dirá: "O Brasil sou eu!" Ecos de um autoritarismo mais chegado à direita.

Lamento que Lula se deixe contaminar por impulsos tão toscos e perigosos. Ele possui méritos de sobra para defender a candidatura que queira. Deu passos adiante no que fora plantado por seus antecessores. Para que, então, baixar o nível da política à dissimulação e à mentira?

A estratégia do petismo-lulista é simples: desconstruir o inimigo principal, o PSDB e FHC (muita honra para um pobre marquês...). Por que seríamos o inimigo principal? Porque podemos ganhar as eleições. Como desconstruir o inimigo? Negando o que de bom foi feito e apossando-se de tudo o que dele herdaram como se deles sempre tivesse sido. Onde está a política mais consciente e benéfica para todos? No ralo.

Na campanha haverá um mote - o governo do PSDB foi "neoliberal" - e dois alvos principais: a privatização das estatais e a suposta inação na área social. Os dados dizem outra coisa. Mas os dados, ora, os dados... O que conta é repetir a versão conveniente. Há três semanas Lula disse que recebeu um governo estagnado, sem plano de desenvolvimento. Esqueceu-se da estabilidade da moeda, da Lei de Responsabilidade Fiscal, da recuperação do BNDES, da modernização da Petrobrás, que triplicou a produção depois do fim do monopólio e, premida pela competição e beneficiada pela flexibilidade, chegou à descoberta do pré-sal. Esqueceu-se do fortalecimento do Banco do Brasil, capitalizado com mais de R$ 6 bilhões, e junto com a Caixa Econômica, libertados da politicagem e recuperados para a execução de políticas de Estado. Esqueceu-se dos investimentos do Programa Avança Brasil, que, com menos alarde e mais eficiência que o PAC, permitiu concluir um número maior de obras essenciais ao País. Esqueceu-se dos ganhos que a privatização do sistema Telebrás trouxe para o povo brasileiro, com a democratização do acesso à internet e aos celulares, do fato de que a Vale privatizada paga mais impostos ao governo do que este jamais recebeu em dividendos quando a empresa era estatal, de que a Embraer, hoje orgulho nacional, só pôde dar o salto que deu depois de privatizada, de que essas empresas continuam em mãos brasileiras, gerando empregos e desenvolvimento no País.

Esqueceu-se de que o País pagou um custo alto por anos de "bravata" do PT e dele próprio. Esqueceu-se de sua responsabilidade e de seu partido pelo temor que tomou conta dos mercados em 2002, quando fomos obrigados a pedir socorro ao FMI - com aval de Lula, diga-se - para que houvesse um colchão de reservas no início do governo seguinte. Esqueceu-se de que foi esse temor que atiçou a inflação e levou seu governo a elevar o superávit primário e os juros às nuvens em 2003, para comprar a confiança dos mercados, mesmo que à custa de tudo o que haviam pregado, ele e seu partido, nos anos anteriores.

Os exemplos são inúmeros para desmontar o espantalho petista sobre o suposto "neoliberalismo" peessedebista. Alguns vêm do próprio campo petista. Vejam o que disse o atual presidente do partido, José Eduardo Dutra, ex-presidente da Petrobrás, citado por Adriano Pires no Brasil Econômico de 13/1: "Se eu voltar ao parlamento e tiver uma emenda propondo a situação anterior (monopólio), voto contra. Quando foi quebrado o monopólio, a Petrobrás produzia 600 mil barris por dia e tinha 6 milhões de barris de reservas. Dez anos depois produz 1,8 milhão por dia, tem reservas de 13 bilhões. Venceu a realidade, que muitas vezes é bem diferente da idealização que a gente faz dela."

O outro alvo da distorção petista se refere à insensibilidade social de quem só se preocuparia com a economia. Os fatos são diferentes: com o real, a população pobre diminuiu de 35% para 28% do total. A pobreza continuou caindo, com alguma oscilação, até atingir 18% em 2007, fruto do efeito acumulado de políticas sociais e econômicas, entre elas o aumento do salário mínimo. De 1995 a 2002 houve um aumento real de 47,4%; de 2003 a 2009, de 49,5%. O rendimento médio mensal dos trabalhadores, descontada a inflação, não cresceu espetacularmente no período, salvo entre 1993 e 1997, quando saltou de R$ 800 para aproximadamente R$ 1.200. Hoje se encontra abaixo do nível alcançado nos anos iniciais do Plano Real.

Por fim, os programas de transferência direta de renda (hoje Bolsa-Família), vendidos como uma exclusividade deste governo. Na verdade, eles começaram num município (Campinas) e no Distrito Federal, estenderam-se para Estados (Goiás) e ganharam abrangência nacional em meu governo. O Bolsa-Escola atingiu cerca de 5 milhões de famílias, às quais o governo atual juntou outros 6 milhões, já com o nome de Bolsa-Família, englobando numa só bolsa os programas anteriores.

É mentira, portanto, dizer que o PSDB "não olhou para o social". Não apenas olhou como fez e fez muito nessa área: o SUS saiu do papel para a realidade; o programa da aids tornou-se referência mundial; viabilizamos os medicamentos genéricos, sem temor às multinacionais; as equipes de Saúde da Família, pouco mais de 300 em 1994, tornaram-se mais de 16 mil em 2002; o programa Toda Criança na Escola trouxe para o ensino fundamental quase 100% das crianças de 7 a 14 anos. Foi também no governo do PSDB que se pôs em prática a política que assiste hoje mais de 3 milhões de idosos e deficientes (em 1996 eram apenas 300 mil).

Eleições não se ganham com o retrovisor. O eleitor vota em quem confia e lhe abre um horizonte de esperanças. Mas se o lulismo quiser comparar, sem mentir e sem descontextualizar, a briga é boa. Nada a temer.

*Fernando Henrique Cardoso, sociólogo, foi presidente da República
(Artigo publicado no Jornal o Estado de São Paulo em 07/02/2010)

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Simplesmente São Paulo!


Eu amo São Paulo!

Nasci, senti: chorei
Vivi, entendi: amei
São Paulo é única, especial



*homenagem aos 456 anos de São Paulo.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Da série "devaneios"...


Ela se diz sabida; ele um benfeitor. O saber da alma não é igual aquele da vida vivida. Ela teme não conseguir; ele já está convecido. O medo é mais do invisível do que se pensa ter. Ela se atira na cama; ele precisa acordar. A vida vivida é cheia de contradições, impossível saber tudo, mas é possível saber viver!

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Aproveito da poesia de Bertolt Brecht para homenagear Zilda Arns...

Permito-me parafrasear Bertolt Brecht...

"Há pessoas que lutam um dia e são boas. Há outras que lutam um ano e são melhores. Há as que lutam muitos anos e são muito boas. Mas, há as que lutam toda a vida, estas são imprescindíveis e eternas!

Vamos eternizar o trabalho de Zilda Arns #NobelPastoralDaCrianca

Zilda Arns foi vítima fatal do terremoto no Haiti (12/01/2010)

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Muito bom esse artigo, vale a leitura...

Direitos humanos ou gato por lebre?

*Por KÁTIA ABREU

HÁ MUITAS maneiras de impedir que o cidadão recorra à Justiça para defender seus direitos. Uma delas, que os brasileiros conhecem bem, foi ensinada aos militares pelo jurista Chico Campos em abril de 1964: consiste em, pura e simplesmente, decretar que é vedada à Justiça apreciar os atos em que o governo ditatorial alegar estar exercendo poderes revolucionários. Agora, estamos diante de uma nova conspiração. Trata-se da ameaça explícita do governo de criar versão própria da Declaração Universal dos Direitos Humanos, da ONU, de 1948.
Um pretexto para estabelecer atalhos e criar entraves ao reconhecimento até de direitos humanos consagrados, como a propriedade e a liberdade de imprensa, que, de princípios indiscutíveis, passam a depender de instâncias administrativas ou sindicais, antes que a Justiça possa reconhecê-los ou preservá-los. A propriedade privada, um dos 17 artigos da primeira Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, da Revolução Francesa, de 1789, perderá a proteção da Justiça brasileira se persistir a versão do decreto.
Outra medida inédita prevê um ranking, dominado por grupos sindicais e administrativos, para avaliar se os órgãos de comunicação podem receber propaganda ou patrocínios, numa confissão tácita de que a distribuição de verbas publicitárias oficiais não é feita por critérios técnicos em que se avaliam a eficácia dos veículos.
Assim, não avançamos. Democracia é privilégio de sociedades desenvolvidas que compreendem o valor da tolerância, a importância dos direitos humanos e a necessidade de respeitar o princípio da igualdade de todos os cidadãos perante a lei.
E, no Brasil, justiça, democracia e direitos humanos são valores consensuais. Tanto que, sob o comando do ex-ministro da Justiça José Gregori, nosso país conquistou prêmio internacional, concedido pela ONU, por ter feito, de forma competente, a implantação, em 1996, de um consistente programa nacional de direitos humanos. Em 2002, o segundo programa deu continuidade aos avanços, reconhecidos internacionalmente.
No novo Programa Nacional dos Direitos Humanos, PNDH-3, o desenho é outro: saem a democracia, a justiça, a tolerância e o consenso e entra a velha visão esquerdista e ideológica que a humanidade enterrou sem lágrimas nas últimas décadas, depois de muito sofrimento e muita miséria.
Direitos humanos, na forma aprovada pelo decreto 7.037, parece ser apenas a máscara benigna e traiçoeira que oculta a face terrível dos demônios que grupos radicais e sectários se recusam a sepultar.
Aproveitando-se do sucesso da economia capitalista e globalizada do Brasil, para o que em nada contribuíram as ideias, os valores e a visão do mundo de setores radicais do PT e dos movimentos que o sustentam, atiram aos brasileiros essa plataforma totalitária. Com que propósito?
Duas ideias me ocorrem: uma possível "satisfação", em fim de governo, a velhos aliados da esquerda ideológica ou então, e seria mais grave, uma tentativa de envenenar e dividir a sociedade brasileira com um debate (esquerda revolucionária x democracia) que, no resto do mundo desenvolvido, é coisa do passado, assunto de museus ou de faculdades de história.
O documento, cuja íntegra tem mais de 80 páginas, contém equívocos inaceitáveis. Ali, o agronegócio é considerado instituição suspeita e desprezível. Tanto que até liminares, um dos instrumentos jurídicos mais essenciais no caso de invasões de terra por terem efeito imediato, só poderão ser concedidas depois de realizados procedimentos administrativos e "conciliatórios". Não há prazos previstos aqui, e os procedimentos poderão ser tão numerosos que tornarão inócuas as providências de urgência reclamadas quando há desrespeito ao direito de propriedade.
Cumpre lembrar, a propósito, que o acesso à Justiça com a devida celeridade é um dos direitos humanos garantidos na Constituição a todos nós, brasileiros e brasileiras.
Dificultar a reintegração de posse é estimular invasões de terra. Não podemos esquecer, igualmente, que os procedimentos "conciliatórios" e burocráticos estariam à mercê de integrantes do MST, que hoje controla, acintosamente, postos de comando no Incra e no Ministério do Desenvolvimento Agrário. A Justiça não pode, em nenhuma circunstância, ser refém de burocracia alguma.
Não é por acaso que só as questões específicas que reafirmam os artigos da Declaração dos Direitos Humanos da ONU, que são parcela mínima no texto, merecem apoio. Os demais pontos não passam de uma tentativa típica de camuflar delírios de dominação autoritária com aparentes manifestações democráticas.

*KÁTIA ABREU é senadora da República pelo DEM-TO e presidente da CNA (Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil).