segunda-feira, 20 de setembro de 2010

La lucidez cotidiana.

"as mulheres esperam que esperam. os anos, os vestidos, os amores. falam daquele que não volta, daquilo que volta, das coisas que têm que voltar. momentos mínimos da realidade. às vezes, escutam os internos. nem tão sempre, o externo. significam algo? procuram documentos estrangeiros a si próprias. tentam ligações, desabafam inquietudes, estranham saídas. terminam por combinar com tudo. e com o mesmo. a dita e cuja neurose cotidiana. não desesperam psicologias desmembradas. para quê? para que precisem ser mais do que são. quando falam sobre compreensão, não compreendem. quando escutam o amor, não o percebem. significam alguém? esperam que as esperem. penso que é inútil. melhor fazerem de conta que são de conta. que se apaixonam por um som ou por um filósofo alemão inexistente. que não necessitam da lucidez do destino: aquele cômodo, muito incômodo, que apóia os anos, os vestidos, os amores. elas precisam des-significar. para quê? para não serem mais do que são em suas intermitências diárias. arrumar mala, abandonar objetos e subjetos, levar nada, esquecer tudo."

domingo, 19 de setembro de 2010

Vale ler!

HISTÓRIA MAL CONTADA
POR XICO GRAZIANO*

(Publicado na Folha de S.Paulo - Tendências/Debates - em 19/09/2010)

O presidente Lula tenta deformar a história. Insiste em afirmar que o Brasil foi descoberto em 2003. Seu proselitismo é equivocado, egocêntrico, imoral e injusto. Muita luta e trabalho coletivo, pessoas importantes ou gente comum, ajudaram a erigir o país.
Lula venceu as eleições em 2002 e, inebriado pelo poder, desatou a esconder do povo certas verdades que o incomodam. Sua maior birra recai sobre Fernando Henrique Cardoso, a quem trata como vilão da história. Jamais Lula reconheceu que o sucesso de seu governo se embasa nas políticas estruturantes comandadas por FHC.
Atacou, de cara, o que denominou de "herança maldita". Mal assumiu o governo, porém, passou a "pentear" os programas existentes, mudando-lhes o nome.
Trocou o Luz do Campo pelo Luz para Todos, iluminando a roça e escurecendo a verdade. Juntou o Bolsa Alimentação e o Bolsa Escola no Bolsa Família, expandindo-o. Ele, que havia um dia chamado os programas de transferência de renda de "esmola de pobre", mudara de opinião. Que bom.
Manteve o Pronaf (Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar), mas desatou maldosamente a instigar pequenos agricultores contra grandes fazendeiros, instaurando a cizânia sob a qual reina desde os tempos de São Bernardo do Campo -um afago aqui, um boné ali.
Sua candidata acaba de receber o apoio de usineiros. Mas o discurso oficial diz que José Serra não gosta da agricultura familiar. História mal contada.
Os filósofos da ciência há muito questionam a relação entre história e verdade. Será possível a objetividade na ciência histórica? A resposta continua complexa. Nós sabemos que a história se escreve pelas mãos daqueles que a dominam.
As guerras territoriais sempre enalteceram os conquistadores. No faroeste norte americano, os índios viraram bandidos.
A permanecer, que história o lulismo contará nos livros escolares? Dirá que o PT se opôs às medidas saneadoras da economia, a começar do Plano Real? Haverá coragem para assumir que lutaram contra a Lei de Responsabilidade Fiscal? Que privatizaram as florestas da Amazônia? Ou esconderá isso?
Duas forças atuam nesse processo que constrói a história recente. De um lado, a maior transparência adquirida com o avanço da mídia. Antes, nem opinião pública havia, e fácil era deturpar o ocorrido. Na cortina de ferro, Stálin destruiu Trotsky, transformando-o de herói em traidor da revolução soviética.
O povo, por bom tempo, acreditou. Do outro lado, opera a incrível capacidade de comunicação de Lula, um encantador de pessoas. Perspicaz, sua lógica política anda impondo sobre a realidade um véu imbecil. Com estrondosa aprovação, Lula debocha de seus críticos, destrói o argumento, vulgariza o debate nacional. Pai dos pobres. Temo, sinceramente, pelo resultado desse processo de formação da nossa consciência coletiva.
Obstinado em eleger sua candidata, Lula enfrenta a oposição ridicularizando os adversários e fazendo-se dono da história. Mostra generosidade com aliados que antes chamava de canalhas, mas despreza o grande sociólogo com quem panfletou em porta de fábrica. Lula renega seu passado para não dar a mão à palmatória para FHC. Ingratidão.
Sua candidata vai além. Aprendiz da política ilusória, transformou a campanha eleitoral em festival de mentiras: alguém acredita mesmo que Serra quer acabar com o Bolsa Família? Privatizar a Petrobras? Vender o Banco do Brasil? O Estado policialesco que se descortina permite temer o livro do futuro. O engodo ameaça prevalecer. Até, tomara, ser desmascarado.

FRANCISCO GRAZIANO NETO, o Xico Graziano, engenheiro agrônomo, doutor em administração pela FGV (Fundação Getulio Vargas), é coordenador do programa de governo de José Serra (PSDB), candidato à Presidência. Foi deputado federal (PSDB-SP), presidente do Incra (1995) e secretário da Agricultura e Abastecimento (governo Covas) e do Meio Ambiente (gestão Serra) de São Paulo.