sábado, 2 de outubro de 2010

O presidente que o Brasil precisa...

Fazer acontecer, uma paixão do Serra

Por Cristina Ikonomidis

Final de 2007, São Paulo, Palácio dos Bandeirantes, gabinete do governador, noite quente. Lá estava eu aguardando mais umas das difíceis, porém produtivas, reuniões da equipe da Educação com o governador Serra. Junto estavam a secretária Maria Helena de Castro e a Iara Prado, secretária adjunta. Trazíamos o relatório sobre o andamento do plano de metas da secretaria, cuja execução colocou, sem exagero, o ensino público paulista no caminho da melhoria, tão almejada por todos.

Eu era assessora especial da secretaria. Meu papel, além de coordenar as ações de comunicação, passava pelo acompanhamento de alguns de nossos projetos. A reunião começou atrasada, como de praxe; estávamos com fome, como sempre.

Esgotado o assunto entre nós na espera, a ansiedade só aumentava. Serra chegou com seu olhar sempre preocupado e sem tempo, porém elétrico. A reunião foi rápida, com algumas interrupções por conta de chamadas telefônicas. Rapidez com Serra não significa que deixamos de ver algo, pelo contrário, eu diria que víamos tudo e muito mais. A facilidade de entendimento sobre qualquer tema e seu método prático de tratar questões faziam do Serra um governador especial.

Aquele “muito mais”, para ele, era encaminhar todos os problemas que perambulavam em sua cabeça constantemente. É como se a mente dele não parasse de ativar a parte do cérebro que cuida de resolver as coisas.

E foi em um desses momentos que ele virou-se pra mim – ao final da reunião – e disse: “Cris, você que entende tudo de computador, de internet, veja uma solução para os laboratórios de informática das nossas escolas. Vamos resolver isso rápido, de uma vez por todas, não agüento mais ver salas fechadas, sem uso, com computadores que nem devem funcionar mais.”

Os laboratórios de informática tinham sido implantados nas escolas estaduais numa época em que a informatização era moda em todo lugar. No entanto, não eram salas de aula comum - e nem deveriam ser. Anos se passaram e, numa rede de ensino com 5,3 mil escolas e pouquíssimas pessoas capacitadas para cuidar de tais salas, o resultado não poderia ter sido pior: computadores antiquados, quebrados, infraestrutura com problemas, salas trancadas etc. A diretora da escola, em geral, tinha medo de deixá-las abertas.

Para o jeito Serra de governar, aquilo era um tormento; tormento que passava a ser nosso na medida em que os dias iam se passando e a cobrança ia aumentando. Como ele mesmo dizia, “eu não sou centralizador, eu apenas acompanho e cobro”. E, é verdade (talvez o padrão de cobrança dele seja tão alto que beira à vontade de resolver as coisas por conta própria e fica parecendo que ele centraliza). É um obsessivo por fazer as coisas acontecerem.

A partir daquela reunião, fui tomada pelo desafio de resolver o problema dos “laboratórios de informática”. Estudo daqui, pesquisa de lá, visita às escolas, conversas com meu colega e amigo Fernando Padula (que era e ainda é chefe de gabinete da Educação) e idéias surgindo.

Semanas depois, para meu desespero, o governador marcou mais uma reunião no gabinete dele, desta vez, para tratar da remuneração dos professores. Como não poderia deixar de ser, ele me cobrou: “E aí, Cris, já resolveu aquele negócio da informática, o que vamos fazer?” Eu disse a ele que estava vendo... Não tem coisa que mais irrita o Serra quando ele percebe o uso do gerúndio em resposta a algo que não estava acontecendo. Foi lacônico: “Se está vendo é porque não fez nada.”

Porém, naquele dia, as idéias estavam tomando forma e disse a ele: vamos “terceirizar” as salas, vamos contratar o serviço, alugar os computadores, como máquina de Xerox, sabe? Não preciso dizer que minha fala - com uma espécie de visão “de direita” - arrepiou todos que estavam na reunião. E não é que ele me estimulou a prosseguir com aquela sugestão? Aliás, essa é uma característica interessante do Serra que poucos sabem: ele acredita, dá linha aos mais jovens.

Alguns meses se passaram até que conseguimos chegar a uma proposta de projeto exeqüível - na verdade tínhamos duas, cuja diferença era uma questão ideológica. Não era tarefa fácil, pois envolvia além da renovação dos equipamentos, adaptação das salas e instalação da rede de acesso à internet, havia o pessoal que ia administrar as salas, ou seja, milhares de monitores capacitados, um pilar fundamental do projeto.

Entre uma discordância e outra na reunião em que discutíamos o projeto – no mesmo gabinete – Serra só escutava, do jeito dele: meio desligado, mas já tinha entendido tudo, estava apenas triturando os elementos para dar a solução final. Ele combina as boas idéias, o espírito público, a visão cartesiana, o conhecimento de economia como meio de fazer acontecer. Um estilo objetivo, às vezes ríspido, afetuoso e instigante; muitas vezes, engraçado.

Assim nasceu o Acessa Escola, um programa inovador, que mantém os laboratórios de informática das escolas estaduais abertos durante todo o período de aulas. Os estudantes podem utilizar as salas a qualquer momento, não apenas durante as aulas de informática, e ainda têm auxílio de monitores treinados que são da própria escola - alunos do 1º e 2º ano do Ensino Médio que recebem uma bolsa de R$ 340 para desenvolver as atividades do programa, durante quatro horas por dia. Em suma, estamos falando de um programa que oferece, praticamente, o primeiro emprego aos jovens e transforma cada laboratório de informática em uma espécie de “lan house” da escola. Vale destacar que a equipe que executou de fato o Acessa Escola foi muito competente, sempre de prontidão e dedicada ao programa.

Fiquei na Secretaria da Educação até agosto de 2009 onde pude acompanhar de perto o sucesso do Acessa Escola. Ainda assim, recebia ligações do governador, que resolvia dar incerta nas escolas, dizendo: “Olha, Cris, aqui na escola que estou não está funcionando, o laboratório está fechado, resolva isso!” Obviamente, o programa tinha um cronograma a seguir, não implantamos tudo de uma vez nas mais de 5 mil escolas.

A inquietude, a preocupação do Serra não atrapalhava o cronograma, mas nos fazia ir à busca de melhorar, com persistência. A última vez que o Serra abordou o tema comigo, estava contente com o resultado, pois tinha percebido que conseguimos realizar um projeto que trouxe muitos benefícios a milhares de pessoas.